domingo, maio 03, 2015

Os Espelhos

OS ESPELHOS

JORGE LUIS BORGES



(Uma tradução)




Eu que fiquei, com os espelhos, horrorizado
Não só diante do cristal impenetrável
Onde finda e se inicia, inabitável,
um espaço de reflexos que não pode ser pensado

mas também frente à água especular que imita
o outro azul em seu céu e sua fundura
que às vezes traça o voo da figura
da ave inversa ou que um tremor agita,

e diante da superfície silenciosa
do ébano sutil, cuja lisura
replica como um sonho a brancura
de um vago mármore ou uma vaga rosa,

hoje, ao fim de tantos e surpresos
anos, errando sob a lua diversa
me pergunto o quê da fortuna, benigna ou adversa,
fez com que eu temesse os espelhos e seus pesos

Espelhos de metal, mascarado
espelho de mogno que na bruma
de seu rubro crepúsculo esfuma
esse rosto, que mira e é mirado,

infinitos eu os vejo, essenciais
executores de um antigo contrato,
de multiplicar o mundo como o ato
seminal, insones e fatais.

Prolongam este mundo incerto e de vaidade infinda
em sua teia, rede de vertigem;
às vezes, na tarde, os tingem
os sopros de um homem que respira, ainda.

Nos espreita o cristal. Se entre as quatro
paredes da alcova um espelho houver
já não estou só. Outro existe. Um reflexo, um ser
que arma no amanhecer um sigiloso teatro.

Tudo acontece e nada gera gravura
nesses gabinetes cristalinos
onde, como fantásticos rabinos
da direita para a esquerda fazemos a leitura.

Claudio, rei por uma tarde, rei sonhado,
Não se deu conta de que era sonho até o dia
em que um ator replicou sua felonia
com silenciosa arte, em um tablado.

Que estranho que haja sonhos, que haja espelhos também,
que o usual e comum repertório
de cada dia inclua o ilusório
mundo profundo que os reflexos urdem.

Deus (dei a pensar) está empenhado
em toda essa inexplicável arquitetura
que edifica a luz com a lisura
do cristal e a sombra com a matéria do sonhado.

Deus criou as noites que se armam
com sonhos, e com o espelho e sua moldura
para que o homem sinta que é figura
e vaidade. Por isso é que nos alarmam.